Enoturismo é caminho para o desenvolvimento da Serra catarinense

Acari Amorim

Entrevista com Acari Amorim

Realizada durante todo o mês de março de 2016, a 3ª Vindima de Altitude comprovou o potencial do enoturismo e da vitivinicultura como propulsores do desenvolvimento regional. Vinícolas, redes de hospedagem e gastronomia e comércio sentiram o efeito positivo na ocupação e nas vendas.

“A Vindima de Altitude é apenas uma ponta do que queremos para a região: criar um grande polo de turismo como um todo, com foco no enoturismo”, afirma Acari Amorim, presidente da Vinho de Altitude – Produtores Associados, entidade promotora do evento.

Jornalista de sólida carreira (O Globo, Veja e RBS) e hoje empresário (dono da Editora Empreendedor que completou 20 anos no mercado nacional), Acari Amorim é o pioneiro no plantio de uvas e produção de vinhos na altitude de Santa Catarina. Com mais dois sócios, em 1999, preparou o solo para o plantio das primeiras parreiras em São Joaquim e criou a Quinta da Neve, hoje uma das vinícolas mais premiadas e conhecidas do Brasil.

Nesta entrevista, ele fala dos resultados alcançados com a Vindima, as mudanças que devem ocorrer na edição do ano que vem e quais entraves precisam ser resolvidos para, definitivamente, tornar a região um polo catalisador de investimentos.

Qual a importância da vitivinicultura para a região que vai da Serra ao Meio Oeste do Estado?
Acari Amorim: Implantada há 17 anos, a produção de uvas e vinhos já soma 35 projetos diferentes e cobre uma área de 600 hectares: destes, 20 vinícolas comercializam mais de 200 rótulos, num total de 1,2 milhão de garrafas por ano. Nesse período, desde o plantio até as estruturas de vinificação, visitação e comércio, as vinícolas já alcançam um investimento total de cerca de R$ 500 milhões. Agora, estamos em um momento muito especial, o de novos investimentos, seja no plantio, produção de vinhos ou na implantação de novas infraestruturas físicas para receber os visitantes. O vinho de altitude já é reconhecido e premiado em todo o país e no exterior também e, sem dúvida, abrimos uma nova fronteira no Brasil para a produção de vinhos de alta qualidade. Acredito também que estamos criando um novo ciclo de desenvolvimento econômico e social para a Serra e para o Meio Oeste de Santa Catarina.

Além da produção de uvas e vinhos, também o enoturismo está em expansão?
Acari Amorim: Com certeza. Esse ano houve a inauguração do receptivo turístico da Leone di Venezia, uma vinícola de charme, uma boutique, que agora se integra a outras dez vinícolas da Serra e do Meio Oeste, com estrutura para receber pessoas de todo o país. A convicção é de que, nos próximos anos, teremos muitos outros empreendimentos similares inaugurados, pelo menos dois deles em 2017.

Neste cenário, qual a importância da Vindima de Altitude?
Acari Amorim: A vindima é a colheita da uva, um momento especial para os produtores, pois é o momento de colher e começar a produção de novos vinhos. Para nós, produtores na altitude de Santa Catarina, fazer vinho é antes de tudo uma arte. Produzimos de forma artesanal, em busca da qualidade. Por isso tornamos esse momento da colheita um festival artístico, cultural, com concertos de música clássica, música popular, rock, dança, teatro e poesia, que envolve além de São Joaquim mais 11 municípios da Serra e do Planalto do Contestado que plantam uvas e produzem os vinhos de altitude. A Vindima, no entanto, é apenas uma ponta do que queremos para a região: criar um grande polo de turismo como um todo, com um grande foco no enoturismo.
O vinho é um grande catalisador do turismo, pois estimula o fortalecimento e o surgimento de novos hotéis, novas pousadas, restaurante, cafés, o artesanato. Temos uma paisagem única, bela, sem igual no mundo, formada por vistosas montanhas, os pinheiros, as antigas taipas dos tropeiros e o espetáculo da neve em muitos anos. Temos uma gastronomia rica e variada: a carne bovina, o frescal, a truta, o queijo serrano, o pinhão e a maçã. A Vindima, portanto, é uma forma de divulgar tudo isso, mostrar esse potencial até então pouco conhecido.

Por que o evento foi ampliado?
Acari Amorim: É uma estratégia para poder atender mais e melhor os visitantes e turistas que foram até as vinícolas participar da colheita, provar e comprar vinhos, além de acompanhar as diferentes atrações culturais pelas diferentes cidades, frequentar os restaurantes e cafés da região que ofereceram cardápios especiais para harmonizar com os vinhos de altitude. Os hotéis e pousadas vão registrar o mês de março deste ano como o período de maior frequência de hospedes dos últimos anos.

O que deve mudar na vindima de altitude em 2017?
Acari Amorim: Nessa Vindima realizamos em apenas num final de semana (entre 11 e 13 de março) uma exposição com degustação de 13 vinícolas da altitude, no centro de eventos de São Joaquim. Em função da grande procura de turistas e moradores da região, percebemos que foi pouco e, no ano que vem, vamos realizar pelo menos mais um final de semana e, se possível, nos quatro finais de semana. Mas teremos, com certeza, novidades para a próxima edição, que deve ser ainda mais grandiosa do que foi esse ano, pois iremos envolver e integrar outros setores do trade turístico, tornando o projeto ainda mais profissionalizado.

Quais os entraves que prejudicam a expansão da vitivinicultura e do enoturismo na Serra e Meio Oeste?
Acari Amorim: Temos sérios obstáculos estruturais. O principal deles é a pesada carga tributária sobre o vinho. Uma garrafa de vinho contém 65% de impostos. A nossa carga do vinho é a mesma da cerveja industrial e do uísque. A maioria dos países produtores de vinho considera essa bebida um complemento alimentar e tem taxa em níveis muito baixo ou zero. Toda a infraestrutura ainda é deficitária, nas estradas, na energia elétrica e em todo o complexo da comunicação, especialmente da internet.
Precisamos ainda de muitos investimentos, públicos e privados. Considero o chamado Caminho da Neve de fundamental importância, pois vai ligar Gramado a Florianópolis, passando por São Joaquim, com uma redução de 100 quilômetros. Sem dúvida, essa será uma das rotas turísticas mais importantes do País, que vai gerar milhares de oportunidades de negócios, empregos e renda para diferentes cidades. O governador Colombo está fazendo a sua parte e conclui o trecho catarinense até o final do seu governo. Do lado gaúcho está parado. É uma pena, um atraso de desenvolvimento.
Não tenho dúvidas que essa rota Caminho da Neve ou rota Serramar, será mais importante, mais vital, que vai gerar mais empregos e riquezas do que trazer todas as montadoras de carros, tratores, caminhões do mundo inteiro para Santa Catarina e Rio Grande do Sul. Temos tudo para criar uma rota de infinitas belezas naturais, de charme, de acolhimento, de hotéis, pousadas, vinícolas, comida típica, artesanato, tradições e cultura. Tudo isso com uma preocupação básica: preservar o meio ambiente.

Quais os diferenciais entre os vinhos de altitude em relação a outros nacionais e importados do Chile e da Argentina, por exemplo?
Acari Amorim Nós, da Vinho de Altitude – Produtores Associados, trabalhamos em favor do vinho brasileiro, em favor do vinho nacional. A qualidade em geral do vinho nacional cresceu muito nas últimas décadas, em Santa Catarina e no Rio Grande do Sul. Em especial, sobre os vinhos de altitude de Santa Catarina posso assegurar que estamos no nível dos melhores do mundo. O nosso Sauvignon Blanc, por exemplo, está no mesmo nível de qualidade ao da Nova Zelândia que é a melhor referência no mundo desta uva. O nosso Pinot Noir pode ser comparado com os melhores da Borgonha, na França, que é a melhor referência desse vinho no mundo.
Estou falando de Pinot Noir que é a uva mais difícil de plantar e depois para fazer o vinho. Quem planta bem e faz um bom Pinot Noir certamente poderá produzir bem muitos outros vinhos. Com as uvas italianas (Sangiovese e Montepulciano) estamos fazendo excelentes vinhos com cortes de duas até cinco uvas diferentes, entre elas o Cabernet Sauvignon, Cabernet Franc, o Merlot, a Touriga Nacional e o Malbec.
O que nós conseguimos na altitude catarinense em 17 anos, muitas regiões do mundo levaram mais de 100 anos, justamente porque começamos desde o início com um alto padrão de qualidade, desde o plantio até a vinificação final.

Por que os vinhos da altitude catarinense são mais caros?
Acari Amorim: Porque utilizamos as técnicas de plantio e as tecnologias de vinificação mais modernas, inovadoras. Nossas mudas foram importadas da França, Itália e de Portugal. Questões como geografia, solo e clima da nossa região são altamente impactantes na qualidade final da uva. Todas as nossas vinícolas utilizam tanques de aço inox e passam seus vinhos em barricas de carvalho francês. É bem diferente do que fazem grandes indústrias da Argentina e do Chile. Eu não disse vinícolas, mas verdadeiras indústrias, pois vinificam em tanques de mais de 1 milhão de litros e jogam madeira picada dentro e outros sabores artificiais. Só para dar uma dimensão: 1 milhão de litros é um pouco menos do que produzem, por ano, todas as vinícolas de altitude de Santa Catarina. Só uma vinícola chilena produz nada menos do que 400 milhões de garrafas por ano. Assim, nossos preços têm que ser mais caros, pois tratamos o vinho de forma selecionada, natural, saudável. Os bons vinhos argentinos e chilenos, feitos de forma natural, correta, são também caros.

Este ano haverá eleições municipais. O que o senhor considera que deve ser prioritário nos planos de governo para os municípios que compõem a região?
Acari Amorim: Além de um apreciador do vinho, sou empresário e vejo o vinho como um produto, que deve ser rentável, não só para o produtor, mas para toda a cadeia de negócios que ele envolve. O vinho e o turismo hoje são, hoje, a grande oportunidade de crescimento econômico e social de toda uma região que abrange pelo menos 12 municípios diferentes na Serra e no Meio Oeste catarinense. São municípios que têm os menores Índices de Desenvolvimento Humano (IDH) não apenas de Santa Catarina, mas também em nível nacional. O melhor dinheiro que pode entrar numa cidade é o do turista.
Mas, como disse antes, é preciso haver investimentos privados e, principalmente públicos, para transformar a região em polo catalisador de turistas. Em São Joaquim, especificamente, é preciso revitalizar todo o centro, concluir o aeroporto, pavimentar ou melhorar muito todos os acessos aos pomares de maçã, pousadas e vinícolas, definir um calendário de eventos para todo o ano. Com isso, é possível atrair investidores dispostos a incrementar o turismo como um todo.
Numa iniciativa da Vinho de Altitude – Produtores Associados foi lançado no ano passado o Projeto São Joaquim – Destino Turístico, justamente para a cidade alcançar esse estágio. Com a coordenação geral do empresário e agora também produtor de vinhos na cidade, Vicente Donini (da Marisol), formamos 19 grupos diferentes, envolvendo 135 pessoas da comunidade. O primeiro resultado desse amplo trabalho é a vinda para a cidade das principais entidades do País, já este ano: Senai, Senac, Sebrae, Fecomércio e Facisc. O principal objetivo dessas entidades será o de formar mão de obra e estimular o surgimento de novas empresas focadas na cadeia produtiva do turismo.
Tudo isso está sendo possível muito devido ao empenho do governador Raimundo Colombo. Sem dúvida, é o governador que historicamente mais investiu na cidade, num valor que já superou R$ 200 milhões. Ele está comprometido em desenvolver toda a região e isso é muito importante.
Mas, além do enoturismo, há outros setores econômicos que podem e devem ser incentivados: acredito também na viabilidade de dois novos polos econômicos: um da alta moda de inverno e outro de cosméticos e produtos de higiene à base de uva e maçã.